Almir Zarfeg resenha “Amores Imperfeitos”, romance erótico de Rômulo França Pinto

Almir Zarfeg resenha “Amores Imperfeitos”, romance erótico de Rômulo França Pinto
18 dezembro 18:28 2017 Imprimir esta notícia

Com excitação e expectativa, li “Amores Imperfeitos”, romance de Rômulo França Pinto que me chegou às mãos pela confreira Edla Almeida. Sou grato aos dois pelo presente de Natal.

Como sempre faço, li o livro atento à história de Ônix e Pérola e, também, aos recursos estilísticos e expressivos empregados por Rômulo para compor sua obra de estreia. A rigor, um enredo de fôlego envolve, inevitavelmente, o binômio fundo/forma. O desafio de todo escritor – digno desse nome – reside na maneira como conduzirá essa questão, mantendo o equilíbrio F/F, permitindo-se experimentar formalmente ou apenas contando uma história sem correr riscos (des)necessários.

Rômulo não só conta uma bela história de amor como ainda brinda o leitor com algumas inovações formais que, a meu ver, valorizam o texto e o tornam interessante.  Mas “Amores Imperfeitos”, com perdão do trocadilho, apresenta imperfeições e êxitos.

Comecemos pelos acertos…

Primeiro, convém informar que estamos falando de um romance erótico, da linha “pornô soft”, cujo maior representante na atualidade é “Cinquenta tons de cinza”, de autoria da britânica Erika Leonard James e que conta a história de Christian Grey e Anastasia Steele. O livro – na verdade, uma trilogia – se tornou sucesso mundial e, rapidamente, ganhou as telonas.

É claro que “Amores Imperfeitos” guarda alguma semelhança com o best-seller: Ônix está para Christian, assim como Pérola para Anastasia! Ambos são profissionais liberais bem-sucedidos. Ambas não resistem a uma aventura sexual intensa e… sadomasoquista!

Segundo (ponto para Rômulo!), “Amores Imperfeitos” conseguiu me envolver do começo ao fim, de sorte que concluí a leitura em tempo recorde, e estou aqui compartilhando essas impressões sobre o livro. Não diria o mesmo sobre “Cinquenta tons de cinza”, cuja leitura deixei pela metade.

Como disse, a trama orbita em torno de Ônix e Pérola, protagonistas, Âmbar e Axinite, secundários, que são casais que se envolvem sexual e emocionalmente falando. Mais que isso, numa espécie de sublimação sexual-amorosa, eles superam a imanência do troca-troca e da relação aberta, para atingir um patamar de realização amorosa quase inatingível, transcendente, sem, contudo, abrir mão da experimentação erótica. A perfeição das pedras preciosas, sugerida nos nomes dos personagens, sinaliza que a realização amorosa é, sim, exequível. Os “amores imperfeitos”, vivenciados pelos personagens, seriam uma opção ao convencionalismo de uma relação a dois. Em vez de comodismo, uma boa pitada de atrevimento no casamento. Em vez de puritanismo, que tal uma boa dose de sacanagem?

Como o sexo constitui ponto alto da história, o autor presenteia o leitor com diversas cenas apimentadas, por vezes narradas com um pouco de exagero. O casal de amantes passa a tarde copulando no motel e, à noite, em casa, se entrega ao ato sexual com a mesma disposição ou ainda com mais fogo.

Como descrever uma cena de sexo explícito, com todos os detalhes, sem cair no grotesco ou descambar para o mau gosto? Pois Rômulo consegue, com louvor, não uma ou duas vezes.  Ele se sai bem quase sempre.

Formalmente, o romancista mineiro se revela seguro como narrador, conduzindo com competência a história, e também como usuário da língua portuguesa. Usa e abusa do foco narrativo, seja na primeira pessoa – passando a bola pros personagens –, seja na terceira pessoa, quando se encarrega de narrar a trama com desenvoltura. Esse expediente, sem dúvida, imprime leveza à narrativa.

Poucas referências culturais, aqui e acolá, dão um quê de sofisticação à obra, que, no entanto, carece de uma interlocução com a temática erótica e, mesmo, sadomasoquista. Afinal, o erotismo ocidental possui uma tradição literária respeitável que o autor, infelizmente, ignorou em sua obra.

Algumas soluções de fundo, movidas pela pressa ou boa intenção, soam gratuitas ou forçadas. A obsessão pelo final feliz, que pode ser vista como algo positivo pelo autor e pelos leitores, me frustrou bastante. O mesmo vale para o apelo a soluções fáceis, de natureza moral ou religiosa, em vez de reflexão, problematização ou a provocação enriquecedoras.

Por fim, mas não menos importante, vai uma dica: as virtudes quase sempre fazem mal à literatura. As boas intenções, assim como as soluções fáceis, também. Todo o sucesso para você, Rômulo França Pinto!

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Almir Zarfeg é poeta e jornalista. Preside a Academia Teixeirense de Letras (ATL).

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