Em prefácio, Zarfeg relembra Inconfidência Mineira, Tiradentes e tragédia da mineradora Samarco

Em prefácio, Zarfeg relembra Inconfidência Mineira, Tiradentes e tragédia da mineradora Samarco
21 abril 19:57 2018 Imprimir esta notícia

Desde a Inconfidência Mineira, que reagiu bravamente à exploração da Coroa portuguesa apoiada por nomes como Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, até os dias de hoje – em que assistimos ao rompimento de duas barragens da Samarco (Vale/BHP Billiton) em Mariana e à sanha dos políticos corruptos –, parece que estamos condenados a um círculo vicioso de exploração, dependência e falta de vergonha na cara.

Se antes a exploração era exercida de fora, com o poderio da metrópole sobre a colônia, agora as coisas se dão na nossa cara, a olhos vistos, como o recente rompimento das barragens com o rejeito do mineiro de ferro em Mariana (MG).

A confiarmos nas ponderações do MPE, o mar de lama da Samarco – que soterrou o distrito de Bento Rodrigues, matando pelo menos duas dezenas de pessoas, e seguiu destruindo tudo que encontrou pela frente, até “desaguar” no Rio Doce, levando morte à vida dos peixes e sérias dificuldades aos moradores de cidades como Governador Valadares (MG), Colatina (ES) e Linhares (ES) – é criminoso e absurdo, razão pela qual a mineradora teve a licença de funcionamento cassada pelo governo estadual.

Mas, pelo visto, a medida é provisória, porque o prefeito de Mariana, Duarte Júnior (PPS), já saiu em defesa da mineradora, com o argumento de que “ruim com ela, pior sem ela”.

Assim que o “tsunami de lama” deixar de ser notícia e forem cumpridas as tais determinações, a Samarco voltará à ativa, dando continuidade à exploração ambiental, econômica e social.

Estive em Mariana há alguns anos, para ser empossado como membro da ALACIB e da SBPA, instituições literárias e culturais sediadas lá, e tive a oportunidade de contemplar  a beleza local, em que o antigo e o moderno se encontram no tempo e no espaço.

Felizmente, Mariana segue na vanguarda literária, como atesta o recente aniversário dos quinze anos do aldravismo, movimento artístico que tanto orgulha Mariana, Minas e o Brasil. Ao mesmo tempo, infelizmente, a cidade ainda é palco da exploração econômica que remonta à era colonial.

Drummond concluiu o poema “Confidência do Itabirano” assim:

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.

Hoje sou funcionário público.

Itabira é apenas uma fotografia na parede.

Mas como dói!

Já Gregório de Mattos iniciou o soneto “Triste Bahia” nestes termos:

Triste Bahia! Ó quão dessemelhante

Estás e estou do nosso antigo estado!

Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,

Rica te vi eu já, tu a mi abundante.

Mantidas as devidas proporções históricas e estéticas, os dois poetas poderiam estar falando da atual Mariana, palco da ganância daqueles que botam o lucro na frente da vida.

Neste trabalho, fruto de um MBA em Comunicação Empresarial, o confrade e jornalista Rubens Floriano Santos nos apresenta um breve histórico da Comunicação de Risco, sua função como estratégia no trabalho de Gestão de Risco, para evitar ou minimizar danos decorrentes de uma crise na corporação, e como elemento fortalecedor das relações entre a empresa e seus stakeholders – público de interesse.

Segundo ele, esforços de comunicação tornaram-se ferramentas para construção da imagem e preservação desse e de outros ativos intangíveis. Na Comunicação Organizacional, o setor de risco, quando aplicado, estabelece relações de confiança fundamentais para mitigar perdas diante de um evento negativo, como o caso do rompimento de uma barragem de rejeitos da mineradora Samarco em Mariana.

Portanto, leitor, vale muito a pena conhecer as possíveis falhas de comunicação entre a Samarco e os moradores do distrito de Bento Rodrigues e, mesmo, entre os operários da mineradora – vitimados, em maior ou menor monta, pela tragédia cujas consequências vão perdurar por dezenas de anos. Dolorida e tristemente.

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Almir Zarfeg é poeta e jornalista. Preside a Academia Teixeirense de Letras (ATL).

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