Fundação Mamãe África de Caravelas apresenta manifesto da literatura afro-brasileira por Carolina de Jesus

Fundação Mamãe África de Caravelas apresenta manifesto da literatura afro-brasileira por Carolina de Jesus
17 março 10:03 2016 Imprimir esta notícia

A Fundação Mamãe África de Caravelas apresenta a vida e a obra de Carolina de Jesus, em um manifesto para a literatura periférica e da afro-brasileira, nos 102 anos de nascimento da brava escritora. Carolina Maria de Jesus nasceu a 14 de março de 1914, em Sacramento, no sudoeste de Minas Gerais, cidade onde viveu sua infância e adolescência. Seus pais, provavelmente, migraram do Desemboque para Sacramento em decorrência da mudança da economia da extração de ouro para as atividades agropecuárias.

Quanto sua escolaridade, em Sacramento, estudou em um colégio espírita, que tinha um trabalho voltado às crianças pobres da cidade, dado à ajuda de pessoas influentes. Carolina estudou pouco mais de dois anos. Toda sua leitura e escrita tem como base este pouco tempo de educação formal. Largou os estudos, mas nunca deixou de ler e escrever.

Mudou-se para São Paulo, em 1947, e foi morar na extinta favela do Canindé, na zona norte da cidade. Trabalhou como catadora de materiais recicláveis. Guardava revistas e cadernos que achava no lixo. Mesmo diante todas as mazelas, perdas e discriminações que sofreu ao longo da vida, Carolina revelou através de sua escrita a importância do testemunho, como meio de denúncia da desigualdade social e do preconceito racial. Carolina escreveu e publicou 8 livros.

carold2Sua obra mais conhecida, Quarto de Despejo – Diário de uma favelada, organizada pelo jornalista Audálio Dantas e lançada em 1960, teve inicialmente uma tiragem de dez mil exemplares, os quais se esgotaram na primeira semana. Passados mais de 55 anos desde então, o livro já foi traduzido em 13 idiomas e vendido em mais de 40 países. Essa obra é uma crônica da vida na favela do Canindé, no início da “modernização” da capital paulista e do surgimento constante das periferias. Realidade cruel e perversa até então pouco conhecida.

Essa literatura documentária, pela narrativa feminina, em contestação, tal como foi conhecida e nomeada pelo jornalismo de denúncia dos anos 50-60, é considerada uma obra atual, pois a temática dá conta de problemas existentes até hoje nas grandes cidades.

Quarto de Despejo inspirou diversas expressões artísticas como a letra do samba Quarto de Despejo, de B. Lobo; como o texto em debate no livro Eu te arrespondo Carolina, de Herculano Neves; como a adaptação teatral de Edy Lima; como o filme realizado pela televisão alemã, utilizando a própria Carolina de Jesus como protagonista do filme Despertar de um sonho (ainda inédito no Brasil); e, finalmente, a adaptação para a série Caso Verdade, da Rede Globo de Televisão, em 1983.

Carolina sempre foi muito combativa, por isso era mal vista pelos políticos de esquerda e direita quando começou a participar de eventos em função do sucesso de seu livro. Por não agradar a elite financeira e política da época com seu discurso, acabou caindo no ostracismo e viveu de forma bem humilde até os momentos finais de sua vida.

carold1Carolina foi mãe de três filhos: João José de Jesus, José Carlos de Jesus e Vera Eunice de Jesus Lima. Faleceu em 13 de fevereiro de 1977, aos 62 anos de idade.

A obra de Carolina Maria de Jesus é um referencial importante para os estudos culturais e literários, tanto no Brasil como no exterior e representa a nossa literatura periférica/marginal e afro-brasileira. Um exemplo de resistência, inteligência e capacidade que fica pra sempre na história da nossa cultura.

Ainda hoje, grande parte da produção de Carolina continua inédita. A pesquisadora Raffaella Fernandez ainda dedica-se à organização dos manuscritos da autora. Em um conjunto de mais de 5 mil páginas, encontram-se 7 romances, 60 textos curtos, 100 poemas, 4 peças de teatro e 12 letras para marchas de carnaval.

caroldEm 2014, como resultado do Projeto Vida por Escrito – Organização, classificação e preparação do inventário do arquivo de Carolina Maria de Jesus, contemplado com o Prêmio Funarte de Arte Negra, foi lançado o Portal Biobibliográfico de Carolina Maria de Jesus. E, em 2015, foi lançado o livro Vida por Escrito – Guia do Acervo de Carolina Maria de Jesus, organizado por Sergio Barcellos. O projeto mapeou todo o material da escritora que se encontra custodiado por diversas instituições, dentre elas: Biblioteca Nacional, Instituto Moreira Salles, Museu Afro Brasil, Arquivo Público Municipal de Sacramento e Acervo de Escritores Mineiros (UFMG).

Os livros publicados de Carona de Jesus, são:

Quarto de Despejo – o diário de uma favelada (1960)
Casa de Alvenaria, o diário de uma ex-favelada (1961)
Pedaços de Fome (1963)
Provérbios (1963)
Diário de Bitita – Póstumo (1982)
Meu estranho diário (1996)
Antologia pessoal (1996)
Onde Estaes Felicidade (2014).

(Da redação TN)

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