
Conforme pesquisa do professor Ademir Júnior, além da tristeza pela morte do ex-vereador Antônio Henrique Kock Ferregueti, o “Camarão”, aos 55 anos, vítima de um trágico acidente de carro no fim da tarde de domingo (13), na rodovia BA-698, a mesma que liga a BR-101 à sede do município de Mucuri, fez renascer uma curiosidade sobre a sua trajetória do político.
Nascido em Mucuri, Camarão deixa um legado de simplicidade e uma trajetória política que, por anos, foi lembrada como uma das mais curiosas e surpreendentes da história do legislativo municipal.
A sua caminhada na política ganhou contornos lendários nas eleições de 2008. Candidato pelo PR (Partido da República), ele chegou a desistir da corrida eleitoral, mas, por um detalhe burocrático, nunca formalizou a desistência junto à Justiça Eleitoral. O resultado foi inusitado: seu nome permaneceu nas urnas e, ao final da apuração, ele havia recebido exatamente dois votos — a menor votação da história para alguém que, anos depois, viria a ocupar uma cadeira na Câmara. Provavelmente, as duas pessoas que votaram nele não sabiam da sua desistência.
A reviravolta aconteceu em dezembro de 2011, com uma ação deflagrada pelo Ministério Público da Bahia (MPBA), que resultou na cassação de vereadores, deixando um enorme vácuo legislativo, restando apenas uma única vereadora em exercício para manter as atividades da Casa. Para recompor o quórum, o juiz eleitoral convocou os suplentes da época. Foi nesse momento que o destino de “Camarão” mudou drasticamente: por estar na lista do PR e não ter formalizado sua saída, ele foi convocado para assumir o mandato.
Os candidatos da coligação do PR que haviam obtido votação superior já tinham migrado para outros partidos, perdendo o direito à vaga pela regra de fidelidade partidária. Por isso, “Camarão”, que permaneceu no partido e, mesmo tendo recebido apenas dois votos em 2008, acabou sendo convocado pelo juiz eleitoral para assumir a vaga aberta.

Empossado em janeiro de 2012, ele assumiu a vaga com seus dois votos, tornando-se o símbolo de um mandato improvável, mas assumindo com a promessa de trabalhar pelo “povo sofrido” e multiplicar sua representatividade.
REELEITO EM 2012
Nas eleições de 2012, resolveu concorrer à reeleição – agora, de verdade – e foi vitorioso com 352 votos, também pelo PR, garantindo sua permanência na Câmara por mais quatro anos, entre janeiro de 2013 e dezembro de 2016.
Na disputa de 2016, já filiado ao PMDB, seu desempenho não passou de 277 votos, total insuficiente para se eleger. No pleito seguinte, em 2020, não conseguiu registrar sua candidatura. Daí por diante, decidiu abandonar a carreira política.
A morte de Camarão encerra um capítulo singular de Mucuri, de alguém que conseguiu fazer parte do Poder Legislativo com apenas dois votos. Seus amigos e familiares agora se despedem de um homem que transformou um erro formal em uma história inesquecível para o extremo sul da Bahia.
O corpo está sendo velado na Câmara Municipal. Até o momento (9h da manhã de 14/09), não foi confirmado o horário do sepultamento. (Dados: Objetivonexus).

