
Um grupo de alunos do Colégio Estadual Henrique Brito de Teixeira de Freitas – Tempo Integral decidiu ir além da teoria. Em meio às comemorações do “Junho Verde” e das ações alusivas ao Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado em 5 de junho, os jovens trocaram temporariamente os cadernos por mudas de árvores, frascos para coleta de água, equipamentos de campo e cadernetas de observação científica. O destino da expedição foi um dos patrimônios naturais mais importantes do município: o Parque Ecológico da Biquinha, considerado por muitos moradores como o verdadeiro “coração verde” da cidade, no bairro Colina Verde.
A atividade integra o projeto ambiental “Revitalização Ambiental – Biquinha, Coração Verde!”, desenvolvido pela unidade escolar desde 2017 e que, ao longo de quase uma década, vem mobilizando estudantes, professores, pesquisadores, instituições parceiras e a própria comunidade em torno da recuperação e preservação de uma das áreas de nascentes mais relevantes de Teixeira de Freitas. Mais do que uma ação ecológica, o projeto tornou-se um laboratório vivo de aprendizagem, onde os alunos assumem o papel de cientistas, pesquisadores e agentes de transformação social.

Divididos em estações de trabalho, os estudantes realizaram coleta de amostras de água e solo para análises laboratoriais futuras, identificaram pontos de degradação ambiental, mapearam áreas de risco, observaram o estado das nascentes e deram continuidade ao programa de reflorestamento que já contabiliza aproximadamente seis mil árvores plantadas no entorno do aquífero. Desse total, cerca de 3.500 mudas foram produzidas no próprio viveiro educador da escola, um espaço que transformou parte do ambiente escolar em um verdadeiro berçário de espécies nativas da Mata Atlântica.
O trabalho de campo também permitiu a integração entre diferentes áreas do conhecimento. Inserida no componente curricular Práticas Integradoras da Modalidade de Educação de Tempo Integral (ProEI), implantada na escola em 2017, a iniciativa alia ciência, educação ambiental e cidadania. Durante as atividades, os alunos realizaram medições de pH da água, estudos sobre a qualidade ambiental do solo, levantamentos geográficos, cartografia de áreas vulneráveis e oficinas sobre plantas medicinais, desenvolvidas tanto no ambiente escolar quanto diretamente na área de preservação.

A importância da Biquinha para Teixeira de Freitas vai muito além da sua beleza natural. O aquífero desempenha papel fundamental no abastecimento hídrico de bairros como Teixeirinha, Bom Jesus, Colina Verde e os residenciais Monte Serrat. Segundo registros históricos e relatos de moradores mais antigos, a região já foi considerada uma verdadeira caixa-d’água natural, formada por dezenas de nascentes convergentes que alimentavam cursos d’água ligados às bacias dos rios Peruípe, Alcobaça e Jucuruçu.
Entretanto, décadas de desmatamento da mata ciliar, ocupação urbana desordenada e processos erosivos comprometeram parte significativa desse patrimônio ambiental. Os impactos da degradação acumulada ao longo dos anos são visíveis e preocupantes. Além da redução da capacidade hídrica de algumas nascentes, a região passou a conviver com deslizamentos de encostas e riscos ambientais que, segundo os organizadores do projeto, já contribuíram para a ocorrência de tragédias humanas. Diante desse cenário, a recuperação da área deixou de ser apenas uma pauta ambiental para se tornar uma necessidade social, urbana e de segurança para toda a população.

O alcance do projeto também é fortalecido por uma ampla rede de parceiros. Entre eles estão o Viveiro Arboretum, os Supermercados Faé, instituições religiosas, órgãos públicos e empresas privadas que contribuem com a doação de mudas, apoio logístico e suporte técnico. Enquanto alguns estudantes realizavam o plantio e o manejo das áreas reflorestadas, outros registravam dados para relatórios científicos destinados à Feira de Ciências da Bahia (FECIBA), reunindo observações sobre recursos hídricos, biodiversidade e os conteúdos trabalhados ao longo do ano letivo.
Ao final da jornada, ficou evidente que a aula de campo representou muito mais do que uma atividade extracurricular. Foi uma verdadeira operação científica e cidadã, na qual educação e preservação caminharam lado a lado. Inspirados pelo provérbio atribuído ao filósofo Confúcio – “Se você está planejando para cem anos, eduque pessoas” – os estudantes compreenderam que cada muda plantada representa um compromisso com o futuro. Afinal, preservar o Parque da Biquinha não é apenas proteger uma nascente; é garantir que o “coração verde” de Teixeira de Freitas continue pulsando, produzindo vida, abastecendo comunidades e inspirando novas gerações pelos próximos séculos.


