
O retrato é o mesmo – Teixeira x Itamaraju – na última terça-feira (24), o atual presidente e candidato da oposição à reeleição da mesa diretora da Câmara Municipal de Teixeira de Freitas, vereador Jonatas Santos (MDB), venceu o pleito como chapa única, somando 14 votos favoráveis, uma abstenção e quatro ausências. A base governista, que apostava na reorganização da Mesa Diretora com apoio direta do prefeito Marcelo Belitardo (UB), não conseguiu consolidar uma candidatura competitiva. No primeiro biênio (2025/2026), o prefeito já havia sofrido revés com a vitória de Jonatas Santos e a derrota do vereador Clemerson do Postinho (UB). Para o segundo biênio, a aposta foi no vereador Ronaldo Baitakão (PSDB), mas, diante da falta de sustentação política, ele acabou desistindo e declarou apoio ao seu então rival, Jonatas Santos, consolidando mais uma derrota para o grupo do prefeito Marcelo Belitardo.
Situação semelhante ocorreu nesta quinta-feira (26) em Itamaraju, quando o prefeito Jorge Almeida (PSDB) tentou articular a reeleição do atual presidente da Câmara Municipal, vereador Chico Jiló (UB), após dias de intensa movimentação política e comemoração antecipada com registro de foto ao lado dos 10 vereadores minutos antes da sessão plenária, pois entendiam que ganharia a reeleição com um placar de 10 a 05. No entanto, o resultado das urnas surpreendeu. Em um placar apertado de 8 votos a 7 – em um universo de 15 vereadores – a vereadora Rose da Saúde (PSDB) saiu vencedora, impondo mais uma derrota ao candidato apoiado pelo prefeito Jorge Almeida, ocorrendo o maior revés político da gestão de Almeida.
Um registro importante revela a dimensão exata da questão: uma hora antes da votação, o prefeito Jorge Almeida reuniu, mais uma vez, 10 dos 15 vereadores da Câmara Municipal, com a finalidade de reforçar a chapa da sua base. Promessas foram reafirmadas, acordos selados, apertos de mão e a palavra de honra dada. O prefeito Jorge Almeida precisava de apenas oito votos para reeleger seu candidato Chico Jiló, mas com dez presentes, a vitória parecia garantida.
Mas quando a urna foi aberta, três deles não seguiram com o atual presidente e, traíram claramente em um recado direto ao prefeito Jorge Almeida, pois três dos dez vereadores que haviam acabado de apertar a mão do prefeito votaram contra. O resultado é conhecido: Rose da Saúde (PSDB) venceu por 8 a 7 votos, uma diferença de apenas um voto que transformou a eleição da nova mesa diretora da Câmara Municipal no maior vexame político da gestão de Almeida. A vereadora Rose da Saúde, que já ocupa a 2ª Secretaria da mesa atual, não apenas derrotou a chapa oficial do prefeito – ela expôs a fragilidade de um governante que não conseguiu ser eficiente na sua articulação política e nem tem feito fazer valer o peso da sua palavra e da sua autoridade entre os aliados.
A articulação de Marcelo Angênica
A derrota de Jorge Almeida no Poder Legislativo só foi possível graças ao rompimento político consumado entre ele e o médico Marcelo Angênica que governou o município nas duas últimas gestões 2017/2020 e 2021/2024, seu antigo aliado e padrinho político. O médico e ex-prefeito Marcelo Angênica, que foi decisivo para a eleição de Jorge Almeida em 2024, rompeu publicamente com o atual gestor nas últimas semanas. A distância entre os dois não é apenas pessoal, é estratégica. Angênica, agora mais próximo dos deputados Sandro Régis e Carlos Robson “Robinho”, reorganizou seu grupo político e demonstrou que mantém capital eleitoral suficiente para eleger vereadores e influenciar decisões na Câmara Municipal de Itamaraju – o que é determinante, inclusive, para a aprovação de algumas de suas contas públicas.
A vitória de Rose da Saúde para a presidência da Câmara Municipal é, na prática, a primeira grande demonstração de força desse novo arranjo político. Nos bastidores, a eleição é interpretada como um recado claro: Marcelo Angênica está de volta ao centro das decisões de Itamaraju, enquanto Jorge Almeida vai precisar repensar seus comportamentos administrativos. Nos corredores do legislativo, se detecta, que os três votos traidores, segundo fontes políticas locais, não foram aleatórios: representam o novo mapa de poder que Angênica vem desenhando nos bastidores. O resultado deixa claro que o controle da Câmara Municipal agora passa pelo crivo do grupo do ex-prefeito Marcelo Angênica, não do atual. Para Jorge Almeida, a consequência pode ser desafiadora: sem comando do Legislativo, sem base sólida e sem a confiança de seus próprios aliados, poderá ter sérias dificuldades crescentes para aprovar projetos e administrar a máquina pública.

O prefeito Jorge Almeida
O que resta agora é somente uma pergunta: o que Jorge Almeida fará com os parlamentares traidores? O prefeito tem nas mãos o poder da caneta – nomeações, emendas, cargos comissionados, contratos, etc. Mas também enfrenta um dilema brutal: se capitular e perdoar os desleais, demonstra fraqueza e abre espaço para novas traições. Se agir com o peso de sua autoridade, cortando benesses e rompendo definitivamente com os infiéis, poderá ampliar (ou não!) seu isolamento – mas demonstrará que ainda tem autoridade e fôlego para brigar. Se nada fizer, traição vira regra. A história política local sugere que, em situações similares, prefeitos que não reagem às traições acabam sendo engolidos pelo próprio sistema. Mas reagir exige capital político – e esse é justamente o ativo que Jorge Almeida mais perdeu nesta última quinta-feira.
A eleição para mesa diretora da Câmara Municipal de Itamaraju é apenas o primeiro round de uma disputa eleitoral que promete ser das mais acirradas dos últimos anos em Itamaraju. O rompimento entre Almeida e Angênica já movimenta o cenário para as eleições de 2026, com o ex-prefeito construindo uma estrutura paralela de poder capaz de disputar votos e influência nas eleições gerais de outubro. Se o prefeito não conseguiu segurar uma simples eleição da Câmara Municipal – dependendo apenas de 8 vereadores -, como fará para dar votos a seus deputados e, em 2028, se reelegeria, sabendo que enfrentará seu ex-padrinho?
A vitória
Para Rose da Saúde, a vitória é pessoal. Para Marcelo Angênica, é estratégica. Para Jorge Almeida, é um alerta vermelho que não poderia ser mais claro: é preciso fortalecer sua articulação e a sua autoridade. E quem manda agora é quem tem votos na Câmara Municipal – mesmo que precise de três parlamentares ‘infiéis’ para ser o ‘fiel da balança’. A vitória de Rose da Saúde é, acima de tudo, a vitória de Marcelo Angênica sobre o homem que ele próprio ajudou a colocar no poder. E na política, poucas derrotas são mais humilhantes do que ver seu sucesso se voltar contra você.

